Exposições

Memorial Tupinambá
Galeria Marta Traba

De 08 de maio a 27 de maio de 2018

Gestos pictóricos clássicos, flanando em curvas modernas e originais, com um olhar avant garde que passeia desde as tradições acadêmicas até as estéticas mais inaugurais. Enquanto pixels e bits se pulverizam sinteticamente na rede nesses novos tempos em que a imagem digital aterrissa na palma da mão, o olhar puro com verve surrealista de Jeffer Zion se materializa organicamente numa manifestação cromática emocional e, ao mesmo tempo, muito precisa da mais elementar de todas as expressões humanas.

Lá estão suas referências na Arte Barroca e no Renascentismo europeu (de capelas do interior paulista a afrescos pintados na época em que viveu na Itália), mas plasmadas ao Realismo, a uma certa poética lúdica e a um novo movim ento intelectual: o do empoderamento das minorias, seja por segregacão etnológica, seja por gênero. São traços de enorme envergadura visual que transbordam da imagem construída, tanto na coreografia da paleta como na película onírica de seus curumins-querubins andróginos, mantos sagrados, paisagens, cenas de caça, araras, botos, guarás, uirapurús e tamanduás. Neste Memorial Tupinambá, o artista paulista de 34 anos se apropria dos côncavos e convexos da Fundação Memorial da América Latina, complexo arquitetônico traçado por Oscar Niemeyer (1907-2012) a pedido do antropólogo-etnólogo-indigenista Darcy Ribeiro (1922-1997) para serpentear as elipses do receptáculo circular que você está prestes a desbravar feito uma oca neofuturista, percorrendo o caminho inverso da colonização ao se aproximar das comunidades indígenas do Alto Xingú. Por meio das paredes e totens a seguir, o artista propõe uma expedição virtual pela sua memória afetiva que alcança os legendários habitantes dessa longínqua região dos recônditos do Mato Grosso.

Quase que instintivamente, de sua experiência de imersão na etnia, Jeffer metabolizou o processo de canonização tribal interpretando aqueles indivíduos quase como divindades, numa narrativa avessa à ação predatória da catequização dos anos 1500. Nas telas a óleo sobre lona ou nos acrílicos, preservando a memória das matérias-primas, nos desenhos em carvão ou nanquim, nas plataformas alternativas que vão da rigidez do metal à delicadeza do murano, passando pela cerâmica das farinheiras, Jeffer “tatuou”sua leitura de grafismos, simbologias, sincretismos, ancestralidade e socialização num futuro sem diferenças. Não à toa, voltou de lá rebatizado pelos índios como Khahuetèni, nome que designa “pessoa importante”. Seu giro pelo universo transcultural de um dos artistas mais promissores de sua geração começa agora. Allex Colontonio Jornalista e Curador